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Por Henrique Ferian
A crescente crise de saúde mental entre crianças, adolescentes e jovens adultos foi o centro de uma entrevista profunda e necessária concedida pelo médico e psicanalista Dr. Antônio João Campos de Carvalho ao Jornal da Manhã, da Jovem Pan Três Lagoas. Com 53 anos de atuação na área da saúde, sendo 30 anos como médico urologista e clínico e 23 anos dedicados à psicanálise, o especialista fez um diagnóstico contundente sobre os impactos da criação sem limites, do uso excessivo de telas e da transferência de responsabilidades da família para a escola e para a internet.
Segundo o entrevistado, vivemos um tempo marcado pela superficialidade, no qual a informação rápida substituiu o conhecimento e as manchetes passaram a valer mais do que a compreensão profunda dos fatos.
“Hoje nós vivemos de capas, de cascas. Não se vai ao âmago da questão. Isso impede o pensamento crítico e torna as pessoas facilmente manipuláveis”, alertou.
O cérebro humano e o mundo das emoções
Dr. Antônio João destacou que, apesar de décadas dedicadas à medicina, foi na psicanálise que ele se deparou com a complexidade real do ser humano.
“Eu achei que em 30 anos de medicina já tinha visto de tudo. Mas o mundo das emoções é infinitamente mais intenso. Muitas dores não aparecem no corpo, mas se manifestam no comportamento.”
Para ele, atitudes individuais e sociais são reflexo direto de conceitos internalizados ainda na infância — valores éticos, morais, religiosos e o respeito à autoridade. Quando essa base é frágil, o adulto tende a reproduzir conflitos, instabilidades e comportamentos desajustados.
Infância sem limites: a raiz do problema
Um dos pontos mais fortes da entrevista foi o alerta sobre a romantização da ausência de autoridade na criação dos filhos. Segundo o psicanalista, criou-se a falsa ideia de que corrigir uma criança é violência.
“Não estamos falando de agressão. Estamos falando de autoridade. Conversar com uma criança de cinco anos como se ela tivesse maturidade para decidir o certo e o errado é um erro grave.”
Ele explicou que é na primeira infância, segunda infância e pré-adolescência que os limites precisam ser estabelecidos. Caso contrário, o adolescente se torna difícil de conduzir e o adulto tende a rejeitar qualquer forma de autoridade.
“Quem não obedece pai e mãe, não obedece professor, chefe, policial ou regra social nenhuma.”
A geração das telas e seus riscos
O uso indiscriminado de celulares, tablets e jogos online foi apontado como um dos principais fatores de deterioração emocional e social das novas gerações.
“A internet aproximou os distantes e afastou os próximos.”
O médico relatou cenas comuns do cotidiano, como adolescentes sentados à mesma mesa, cada um imerso em sua própria tela, sem diálogo ou troca de experiências. Para ele, isso compromete o desenvolvimento emocional e a capacidade de convivência.
Casos envolvendo jogos online, como o Roblox, também foram citados como exemplo de riscos reais, incluindo aliciamento, pedofilia e exposição precoce a conteúdos criminosos.
“A internet não tem rosto. Existe uma rede gigantesca de pedofilia e iniciação ao crime. Se não houver vigilância dos pais, a criança fica completamente vulnerável.”
Pais culpados, filhos sem referência
Outro ponto sensível abordado foi o sentimento de culpa dos pais modernos, que, em busca de oferecer melhores condições materiais, acabam terceirizando a educação e cedendo à permissividade.
“O pai se sente culpado por não estar presente e, quando está, permite tudo. A criança passa a criar seus próprios conceitos. E que conceito uma criança pode ter sozinha?”
Nesse vazio de referências, influenciadores digitais e youtubers passam a ocupar o lugar que deveria ser da família.
“As crianças buscam ídolos. Se não encontram em casa, vão encontrar na internet.”
Educação não é função da escola
De forma enfática, Dr. Antônio João fez uma distinção clara:
“Educação é função de pai e mãe. A escola é responsável pelo conhecimento.”
Ele criticou a transferência dessa responsabilidade para professores, que hoje, segundo ele, estão engessados, sem autonomia para corrigir ou exigir aprendizado, muitas vezes pressionados por pais que não aceitam limites impostos aos filhos.
Autoridade, fé e formação de caráter
Sem entrar em disputas ideológicas, o psicanalista defendeu o resgate de princípios básicos como ética, moral, respeito e espiritualidade.
“A criança precisa ser apresentada a um princípio de fé. A escolha da religião pode vir depois, mas a noção de Deus e de autoridade precisa ser construída desde cedo.”
Ele alertou para frases comuns no cotidiano familiar, como “não faz isso porque o papai não gosta”, que, segundo ele, ensinam a criança apenas a obedecer na presença dos pais.
“O correto é dizer: não faça isso porque está errado. Assim ela não fará nem na presença nem na ausência.”
Ensinar pelo amor ou pela dor
Ao final da entrevista, Dr. Antônio João deixou um alerta contundente aos pais que acreditam que “a vida ensina”.
“A vida ensina pelo amor ou pela dor. Se você não ensina pelo amor, seu filho vai aprender pela dor — muitas vezes atrás das grades ou em instituições.”
Para ele, ainda há tempo de mudança, inclusive na vida adulta, mas quanto mais cedo a intervenção, maiores as chances de formar indivíduos emocionalmente saudáveis.
“Se os pais sentirem que não dão conta, procurem ajuda profissional. Está em jogo o futuro de uma geração inteira.”
Um alerta necessário
A entrevista deixou uma reflexão clara: não existe atalho para a formação de caráter. Limites, presença, diálogo, autoridade e exemplo continuam sendo insubstituíveis — mesmo em um mundo dominado por telas, algoritmos e inteligência artificial.
Como resumiu o próprio entrevistado:
“Não é a vida que tem que ensinar. Quem ensina é pai e mãe.”
Confira a Entrevista: