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Rios invisíveis, lagoas ameaçadas: o que o crescimento de Três Lagoas está destruindo

Três Lagoas às cegas: cidade enfrenta apagão de dados meteorológicos e cresce ignorando alertas da ciência. Professor doutor do Instituto Federal alerta para falhas no monitoramento climático, expansão urbana desordenada e impactos ambientais silenciosos no campo

Por Henrique Ferian

Três Lagoas pode ser uma das cidades mais aquecidas do interior do Brasil, mas não sabe exatamente o quão quente está — nem quanto choveu ontem. É esse o diagnóstico apresentado pelo professor doutor em Geografia Kléber Rodrigo Penteado, geógrafo e pesquisador do Instituto Federal de Mato Grosso do Sul (IFMS), trabalha com planejamento ambiental e urbano em entrevista à Jovem Pan Três Lagoas na manhã desta segunda-feira.

Monitoramento meteorológico em colapso

O cenário descrito é preocupante: dos pontos de coleta de dados climáticos que deveriam cobrir o município, praticamente nenhum funciona de forma adequada e oficialmente. O pluviômetro da Cemaden do Jardim Dourados está inoperante há mais de cinco anos o do Parque São Carlos, localizado na UPA, opera de forma precária e sem atualização regular. A estação do Instituto Nacional de Meteorologia (INMET) no bairro Nossa Senhora Aparecida registra dados em alguns momentos do dia, mas não os transmite ao sistema federal — ou seja, Três Lagoas simplesmente não aparece nos relatórios climáticos oficiais.

A situação foi agravada recentemente com a não renovação do convênio meteorológico do aeroporto municipal. O contrato com a Aeronáutica, que era renovado automaticamente mediante simples sinalização da prefeitura, foi perdido por omissão, pontuado pelo apresentador “Era só sinalizar que queriam a renovação. Não sinalizaram, e agora perdemos. Pilotos que chegam a Três Lagoas não têm mais dados climáticos locais para se orientar”, explica.

Diante desse vácuo, o único ponto de monitoramento funcional da cidade é a estação montada pelo próprio Penteado no campus do IFMS — construída com recursos próprios, a um custo aproximado de R$ 2 mil, e operacional desde 2022. O equipamento monitora chuvas minuto a minuto, uma capacidade rara no território brasileiro. Mesmo assim, a estação apresentou falhas nos registros de temperatura em janeiro e fevereiro, evidenciando a vulnerabilidade de depender de um único ponto e de poucos pesquisadores.

“Eu fiz do zero, sozinho. Se for feito em escala, dá para baratear e ter mais pontos na cidade. Mas isso demanda investimento, demanda equipe, demanda política pública”, afirma o pesquisador.

Planejar pela média é um erro grave

A ausência de dados não é apenas um problema técnico — ela tem consequências diretas sobre as decisões de planejamento urbano. Penteado publicou recentemente, em co-autoria com colegas da UFMS, um estudo científico sobre os padrões de chuva de Três Lagoas a partir de um banco de dados de 35 anos cedido pela antiga Fibria, hoje Suzano. O trabalho foi publicado deliberadamente em português, em uma revista franco-brasileira, para ampliar o acesso às informações.

Os dados revelam um problema estrutural: Três Lagoas tem clima tropical com duas estações extremas — uma seca intensa de abril a setembro, com meses de chuva zero, e uma chuvosa concentrada de dezembro a março, com janeiros que já superaram 400 mm. A média anual histórica é de apenas 107 mm mensais — um número que mascara completamente a realidade.

“Planejar a cidade em cima da média é, para usar um português bem claro, de uma ignorância tremenda. Qualquer chuva de verão passa da média. Em fevereiro, choveu 90 mm em quatro horas. Quase a média histórica mensal inteira em uma única noite. É óbvio que isso vai causar alagamentos se a drenagem for dimensionada pela média”, diz o professor.

A lição prática, segundo ele, é que qualquer obra de drenagem precisa ser projetada com base nos volumes máximos registrados — que chegaram a mais de 450 mm — e não em médias que não correspondem a nenhum mês real.

A cidade que cresceu sobre rios invisíveis

Penteado chama atenção para um problema histórico que se repete: Três Lagoas foi construída sobre cursos d’água que foram simplesmente canalizados e esquecidos. A Baixada do Jardim Alvorada, por exemplo, é uma região de transbordamento natural de um rio. A área próxima à Catedral, no centro da cidade, também esconde um rio canalizado sob a Rua Antônio Trajano — obra feita há mais de 20 anos como solução emergencial.

“Quando você canaliza um rio, tira o problema da visão da população. Mas a natureza cobra a conta depois. Quem mora ali não tem culpa. Mas os gestores precisam entender o que estão construindo sobre o quê”, afirma.

O problema se repete nas novas expansões da cidade. A zona oeste e noroeste — onde se encontram bairros como Mais Parque, Montanini e os condomínios Ecoville — são áreas de recarga das lagoas que dão nome ao município. A água que abastece as lagoas não vem da superfície: ela infiltra no solo e percola lentamente até os corpos hídricos. Ao impermeabilizar essas áreas com casas geminadas, concreto e lotes menores, esse processo é interrompido.

“Moradores da região do Interlagos, do Maristela, do Vila Verde já sabem o que é alagamento depois de uma chuva. E vai piorar. A tendência, dura e cruel, é que as lagoas sequem e a temperatura da cidade, que já é alta, aumente ainda mais”, alerta Penteado.

Pesquisas já registram diferenças de até 8°C entre as áreas urbanas e a periferia rural próxima — um fenômeno chamado de ilha de calor urbana. O aumento do adensamento sem corredores verdes, sem respeito às áreas de recarga de aquífero e sem planejamento de drenagem tende a ampliar essa diferença.

A tese: estradas viram rios no campo

Recentemente aprovado no doutorado pela UFMS, Penteado defendeu tese sobre a perda de solos em estradas rurais de leito natural na bacia do Córrego Moeda, uma das áreas de uso mais antigo para o cultivo de eucalipto na região de Três Lagoas.

O estudo identificou um processo que o pesquisador denomina “conectividade hidrológica retilínea e induzida”: durante as chuvas, as estradas de terra compactadas funcionam como calhas, formando rios temporários que transportam grandes volumes de sedimento diretamente até os cursos d’água da bacia.

“Eu estava em campo e vi literalmente um rio correndo debaixo das rodas do carro. Nas margens — áreas de eucalipto, pastagem ou cerrado —, a água infiltra lentamente. Na estrada, ela corre pela superfície e carrega tudo. Esse sedimento vai direto para o fundo dos córregos”, explica.

A conclusão é que, mesmo com a melhoria no manejo das áreas de produção — a transição da pecuária extensiva para o eucalipto trouxe práticas mais cuidadosas —, as estradas continuam sendo o principal gargalo ambiental. O assoreamento progressivo dos córregos pode ser um dos fatores que explica o fenômeno relatado por moradores e trabalhadores rurais da região: nascentes e córregos que nunca secaram estão secos.

“O campo grita. Em 40, 50 anos, nunca vi essa nascente secar. E agora tá seca. Ouvi esses relatos várias vezes. Não estudei especificamente o lençol freático, mas vi córregos secos mesmo no período de chuvas, mesmo depois de chuvas fortes. Água na estrada, mas no córrego, nada”, relata o pesquisador.

Questionado sobre a responsabilidade das empresas de celulose, Penteado é cuidadoso: afirma que as empresas se esforçam em cumprir a legislação vigente, mas levanta uma questão mais profunda. “A lei foi feita por quem? Com qual base científica? Estudos recentes sobre os impactos do eucalipto e da silvicultura em larga escala são considerados nessa legislação? Esses são os pontos a debater.”

Nota técnica ignorada, plano diretor sob pressão

Em paralelo às pesquisas, Penteado elaborou uma nota técnica pelo Laboratório de Pesquisas Ambientais do IFMS com sugestões para o novo Plano Diretor de Três Lagoas — documento que orientará o desenvolvimento urbano do município pelos próximos dez anos. A nota foi protocolada na prefeitura, enviada por e-mail para diversas secretarias e encaminhada diretamente ao celular pessoal de vereadores. Até hoje, nenhuma resposta foi recebida.

“Não é uma crítica gratuita. Meu papel é apresentar o diagnóstico e propor caminhos. Protocolei, enviei, aguardei. Nada. Sequer um ‘recebi’. E agora há uma pressa para votar esse plano sem o devido debate”, afirma.

Segundo o pesquisador, a academia, a Universidade Federal e o Instituto Federal não foram convidados para participar do processo de revisão do Plano Diretor. A única audiência pública ocorreu em julho, com uma janela de contribuições que foi utilizada por Penteado para submeter suas propostas — sem retorno até o momento.

Entre os pontos de maior preocupação está a proposta de redução do tamanho mínimo dos lotes. A justificativa apresentada é a de que lotes menores barateiam os imóveis. Para Penteado, isso não se sustenta na prática e representa um retrocesso ambiental: menos área permeável, mais impermeabilização nas zonas de recarga, mais pressão sobre a drenagem e mais calor na cidade.

“A forma como está sendo proposto o crescimento da cidade é ambientalmente catastrófico. Pega Belo Horizonte, Porto Alegre, São Paulo — cidades que ignoraram esses alertas e hoje gastam bilhões tentando remediar. Ainda dá tempo de planejar diferente. Mas o tempo está passando.”

O caminho segundo a ciência

O pesquisador não se coloca como opositor ao crescimento. Seu argumento é o oposto: que o crescimento sustentável e economicamente racional exige dados e planejamento baseado em evidências. Investimentos em drenagem feitos sem análise histórica das chuvas podem ser desperdiçados em áreas que não precisam de obras profundas, enquanto regiões críticas ficam desprotegidas.

“Se você tem os dados, sabe onde investir. Se não tem, torce para acertar. E quando erra, gasta o dobro para consertar”, resume.

Para ampliar o monitoramento, Penteado defende a criação de um fundo municipal de monitoramento climático — um mecanismo de financiamento contínuo que custeie equipamentos, manutenção e formação de equipes. O Laboratório de Pesquisas Ambientais do IFMS está expandindo sua equipe e mantém as portas abertas para parcerias com o poder público, empresas e pesquisadores.

O tema do Plano Diretor deverá ser abordado em nova entrevista, com tempo dedicado exclusivamente ao assunto. Por ora, fica o alerta: a cidade que não ouve a ciência aprende com enchentes, secas e contas bilionárias — e sempre mais tarde do que deveria.

Confira a Entrevista:

 

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