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POR HENRIQUE FERIAN
A violência doméstica segue sendo uma realidade preocupante em Três Lagoas e tem mobilizado diariamente as forças de segurança. Em entrevista, a delegada titular da Delegacia de Atendimento à Mulher (DAM), Sayara Quinteiro Martins Baetz, detalhou o cenário atual no município, apontando aumento nas denúncias, maior agilidade nas investigações e um trabalho intensificado para evitar que casos evoluam para feminicídio.
Segundo a delegada, somente no último ano foram instaurados 1.363 inquéritos, número que reflete não apenas a incidência dos casos, mas também o encorajamento das vítimas em procurar ajuda. “Hoje a gente consegue não só instaurar, mas finalizar mais investigações do que entram. Isso permite dar atenção aos casos mais urgentes”, explica.
Um dos pontos destacados é a atuação rápida da equipe diante de situações recentes de violência. De acordo com Sayara, quando há flagrante, a prioridade é localizar e prender o agressor.
“A melhor medida protetiva é a prisão. Quando a equipe identifica que o crime acabou de acontecer, vai imediatamente atrás do autor para garantir que essa mulher volte em segurança para casa”, afirma.
Essa postura tem refletido no aumento de casos divulgados envolvendo prisões, especialmente de homens que descumprem medidas protetivas, se aproximando das vítimas ou mantendo contato por mensagens e ligações.
A delegada também enfatiza o funcionamento da chamada rede de proteção, que envolve diversos órgãos no atendimento às vítimas.
Entre eles estão Polícia Civil, Polícia Militar, CRAM, CREAS, CRAS, Defensoria Pública e serviços de saúde. O objetivo é garantir que, após a denúncia, a mulher receba acompanhamento completo — psicológico, social e jurídico.
“Quando a mulher entra no sistema de justiça, ela precisa sair com o ciclo de violência encerrado e protegida. A rede não pode falhar”, pontua.
Apesar dos avanços, a subnotificação ainda é um desafio. Muitas vítimas permanecem anos em relacionamentos abusivos antes de denunciar.
“Uma mulher pode levar de 7 a 10 anos para procurar ajuda. Isso acontece por conta do ciclo da violência, que alterna momentos de agressão com pedidos de desculpas e falsas mudanças”, explica a delegada.
Fatores como dependência emocional, financeira, medo e vergonha também contribuem para que muitas desistam do acompanhamento ou não levem a denúncia adiante.
A entrevista também trouxe um ponto crucial: a violência não começa com agressão física.
Segundo a delegada, os primeiros sinais aparecem de forma silenciosa:
“Quando a mulher perde a autonomia e começa a se isolar, esse é um sinal claro de alerta. Depois disso, a tendência é a escalada da violência”, alerta.
Dados apontam que 95% dos agressores voltam a cometer violência após o primeiro episódio, o que reforça a importância de interromper o ciclo o quanto antes.
Embora nem todos os casos sigam o mesmo padrão, a delegada destaca que o feminicídio, na maioria das vezes, é o desfecho de uma sequência de abusos.
Casos recentes mostram que o crime pode ocorrer tanto em relacionamentos longos quanto em vínculos recentes, inclusive com poucos dias de convivência.
“Não existe um perfil único. A violência doméstica acontece em todas as classes sociais, idades e níveis de escolaridade”, afirma.
As medidas protetivas continuam sendo um dos principais mecanismos de defesa das vítimas e, segundo a delegada, têm eficácia — desde que sejam respeitadas e fiscalizadas.
Uma das novidades é o uso de tornozeleira eletrônica em agressores, o que permite monitoramento em tempo real e maior segurança para a vítima.
No entanto, ela faz um alerta:
“É fundamental denunciar qualquer descumprimento. Sem essa comunicação, não conseguimos agir.”
A orientação é clara: ao identificar qualquer tipo de violência, a vítima deve procurar imediatamente ajuda.
O CRAM também pode ser procurado para acompanhamento psicológico e social.
Ao final, a delegada deixou um recado direto às mulheres que vivem esse tipo de situação:
“Se você se identificou com algum sinal, procure ajuda. Não perca mais tempo. Estamos aqui para acolher, orientar e garantir a sua proteção.”
A entrevista reforça que, embora o número de registros tenha aumentado, isso também representa um avanço: mais mulheres estão rompendo o silêncio — passo fundamental para combater a violência e evitar tragédias maiores.
Confira a Entrevista: