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Ex-maquinista da Noroeste do Brasil relembra trajetória de quase 28 anos, destaca papel da ferrovia no desenvolvimento da cidade e lamenta abandono do trecho
POR HENRIQUE FERIAN
No Dia do Ferroviário, celebrado em 30 de abril, histórias que ajudaram a construir Três Lagoas voltam à tona — histórias que passam pelos trilhos da antiga Estrada de Ferro Noroeste do Brasil (NOB), responsável por impulsionar o crescimento econômico e populacional da região.
Muito antes da industrialização, foi a ferrovia que conectou o município ao restante do país, no trecho que ligava Bauru (SP) a Corumbá (MS). Hoje, o que restou foi a memória de quem viveu essa realidade de perto.
Um desses personagens é o ferroviário aposentado Jansem Delamare da Silva, que dedicou quase 28 anos à NOB. Em entrevista, ele relembrou com emoção o início da carreira e a importância da profissão.
“Eu entrei como auxiliar de maquinista… e foi a ferrovia que deu sustento pra minha família. Tudo que eu tenho, eu devo a ela”, contou.
A rotina não era fácil. Locomotivas antigas, sem estrutura adequada e longas jornadas faziam parte do dia a dia. Ainda assim, o sentimento era de pertencimento.
“Era sofrido, não tinha ar-condicionado, não tinha conforto… mas a gente era feliz. Gostava do que fazia”, relembra.
O trabalho exigia dedicação total. Escalas irregulares, viagens constantes e até dias longe de casa eram comuns. Mas, segundo Jansem, havia algo que hoje é raro: orgulho da profissão.
“Meus filhos nunca me viram reclamando do serviço. Era a mão que me alimentava.”
A importância da ferrovia para Três Lagoas é direta. Segundo o ex-ferroviário, a cidade cresceu a partir dos trilhos.
“A ferrovia chegou primeiro. Três Lagoas é o que é hoje por causa dela”, afirmou.
Na época, o transporte de cargas e passageiros movimentava a economia, integrava regiões e criava oportunidades. Oficinas, estações e centenas de trabalhadores formavam uma cadeia que sustentava famílias inteiras.
O cenário começou a mudar na década de 1990, com a privatização da malha ferroviária. A NOB, que fazia parte da Rede Ferroviária Federal, foi uma das primeiras a ser concedida à iniciativa privada.
O impacto foi imediato.
“Houve demissões em massa, fechamento de estações e oficinas. Foi muito traumático”, relembra Jansem.
Com o passar dos anos, o transporte de passageiros deixou de existir, e a ferrovia perdeu sua função social, passando a atender principalmente ao transporte de cargas — e, em muitos trechos, sendo completamente abandonada.
Hoje, o cenário é de incerteza. O trecho entre Bauru e Corumbá praticamente não possui mais circulação ferroviária ativa em diversos pontos.
“A verdade é que hoje não tem mais trem rodando como antes. Só resta a saudade”, resume.
Apesar disso, ele destaca que ainda existe potencial logístico na ferrovia, mas os altos custos de investimento e entraves estruturais dificultam qualquer retomada no curto prazo.
Enquanto países desenvolvidos ampliam suas malhas ferroviárias, o Brasil seguiu na direção oposta.
“O Brasil foi na contramão. Ferrovia é segurança, é logística, é desenvolvimento. Hoje as rodovias estão saturadas”, alerta.
Mesmo diante das dificuldades e do fim de um ciclo, o sentimento que permanece é de orgulho.
Jansem conta que a história com a ferrovia atravessou gerações. Hoje, o filho seguiu o mesmo caminho e atua como maquinista na Vale, em Minas Gerais.
“Um pai colocar um filho dentro de uma locomotiva já é uma motivação. Mesmo com tudo que eu vivi, ele escolheu esse caminho… e eu tenho muito orgulho disso.”
A escolha do filho reforça o vínculo construído ao longo dos anos e o respeito pela profissão, mesmo diante das mudanças no setor.
“Se tivesse que começar tudo de novo, eu começaria”, afirmou.
No Dia do Ferroviário, a homenagem se estende não apenas aos que ainda estão na ativa, mas também àqueles que ajudaram a construir a história — muitos deles já ausentes, mas presentes na memória da cidade.
“Ser ferroviário é ter isso no sangue. Foi uma vida difícil, mas que valeu a pena.”
Mais do que trilhos e locomotivas, a ferrovia representa um capítulo fundamental da história de Três Lagoas — um capítulo que não pode ser esquecido.
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