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Por AUGUSTA RUFINO
O historiador Rodrigo Pedroso Fernandes revela como a ferrovia, a Usina de Jupiá e a mistura de povos transformaram uma região isolada e de difícil acesso na potente Capital Mundial da Celulose
Na véspera de celebrar seus 111 anos de emancipação política, Três Lagoas teve a sua trajetória relembrada de um jeito diferente. Em entrevista concedida nesta quarta-feira (10) ao Jornal da Manhã, da rádio Jovem Pan 99.5 FM (do Grupo Difusora de Comunicação), o historiador e pesquisador Rodrigo Pedroso Fernandes trouxe um relato detalhado sobre o passado, os desafios e a mistura cultural que existe no DNA do município.
O bate-papo com o historiador mostrou que o sucesso econômico de Três Lagoas não aconteceu por acaso, mas sim por causa de sua localização estratégica, que começou a fazer a diferença ainda na época da colonização.
Diferente de muitas cidades que cresceram sem nenhuma organização, Três Lagoas nasceu de um projeto moderno para a sua época. Segundo Fernandes, que trabalha junto à Câmara Municipal na recuperação da memória histórica da cidade, o desenho do município foi definido em 1909. Foi quando uma comissão de engenheiros da Estrada de Ferro Noroeste do Brasil (NOB) percebeu que era preciso criar um ponto de apoio forte entre Bauru (SP) e Campo Grande.
“A comissão de engenheiros teve a consciência de que, por causa da grande distância entre as cidades, era preciso projetar uma cidade moderna para ser uma sede na região. Aí começa Três Lagoas”, explicou o historiador, lembrando que o nome do município já aparecia em revistas científicas antes mesmo da fundação oficial.
A decisão de mudar o local por onde o trem atravessaria o Rio Paraná — que antes seria em Itapura e passou para a região do Jupiá, em 1909 — foi o grande ponto de virada que impulsionou o desenvolvimento local.
Ao longo da entrevista, Rodrigo explicou os grandes momentos que mudaram a região. Desde as primeiras expedições de exploradores nos séculos XVI e XVIII, passando pela chegada dos mineiros com a criação de gado no século XIX, até a explosão de novos moradores com a construção da Usina de Jupiá na década de 1960, Três Lagoas sempre atraiu muita gente.
Essa movimentação intensa criou uma grande mistura de culturas. A construção da linha de trem, que era um trabalho muito pesado e perigoso, atraiu grupos de imigrantes sírios, libaneses, russos, espanhóis e italianos. Anos mais tarde, as obras da usina hidrelétrica trouxeram trabalhadores de todas as regiões do Brasil.
“A nossa característica cultural é aberta ao mundo. Três Lagoas sempre acolheu bem e se transformou com a chegada dos novos moradores”, destacou Fernandes.
Questionado sobre o título atual de “Capital Mundial da Celulose”, o historiador relembrou que a cultura do eucalipto não começou do nada em 2009. Na verdade, ela é fruto de plantios que começaram nos anos 1970 e ganharam força em 1988, com a chegada de empresas pioneiras. O que mudou de lá para cá foi a tecnologia, que fez as árvores crescerem e serem cortadas em muito menos tempo.
Para o especialista, esse ritmo acelerado faz com que o município, às vezes, precise “crescer na marra”, já que a força da região e das estradas atrai investimentos quase de forma natural.
Ao olhar para o futuro, Fernandes destacou que o maior orgulho do morador de Três Lagoas deve ser a sua identidade rica e unida, enquanto o maior desafio está em planejar a cidade a longo prazo. “Nós temos o Rio Paraná na nossa porta, energia de sobra com usinas hidrelétricas e termoelétricas, terras planas e estamos no centro do transporte do país. Precisamos organizar a estrutura urbana para que toda essa riqueza traga, acima de tudo, mais qualidade de vida para a população”, concluiu.