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A inflação voltou a ser a pauta dos brasileiros desde o ano passado quando fechou acima dos 10% – índice maior que o registrado em 2015 – e vem ganhando intensidade ao longo dos meses após o pico da pandemia e desde o início da guerra da Ucrânia. No entanto, devido à falta de contato com educação financeira, muita gente não sabe o que é inflação e porque eventos de escala internacional impulsionam o aumento dos juros sobre itens essenciais e empréstimos bancários.
Em conversa com o apresentador do Tribuna Livre, Henrique Ferian, Juliane Radael, especialista em investimento CEA (Certificação ANBIMA de Especialistas em Investimento), explicou que, de uma maneira mais simples, a inflação significa a perda do poder de compra da população ao ir ao supermercado e ao abastecer o veículo no posto de combustível, por exemplo, ou seja, significa que dinheiro do brasileiro está valendo menos.
A especialista explica que diante desse cenário, o Banco Central e o Comitê de Política Monetária (Copom) aumentam a taxa Selic para tentar combater a desvalorização do real, freando o consumo (o que tira dinheiro de circulação) e cria empecilhos para a solicitação de empréstimos por pessoas físicas e jurídicas, por meio da influência de outras taxas de juros como empréstimos, aplicações financeiras e financiamentos: “Até o final do ano a expectativa é de que (a inflação) chegue até 14%”, conta a especialista sobre a projeção para 2022.
Juliane destaca que no ano passado o Brasil já havia antecipado a mudança nas taxas e saiu na frente em relação a países como os Estados Unidos para controlar a inflação que ultrapassou a meta dos 3,5% chegando aos 14%, bem acima do teto: “A inflação é generalizada e global. Há uma expectativa de uma recessão mundial porque todos os países estão passando pelo aumento da taxa de juros”, explica a especialista a respeito do cenário que não depende apenas das decisões políticas e econômicas tomadas no Brasil.
Fatores como os reflexos da pandemia de Covid-19 com a interrupção das cadeias produtivas, injeção de mais dinheiro na economia por meio de auxílios para subsistência de civis e a escassez de produtos em relação a demanda de consumo estão fortemente ligados a escalada da inflação, explica a especialista. Além disso, a guerra na Ucrânia impactou ainda mais a economia: “É uma série de fatores. Começou ali na Covid”.
A globalização torna países dependentes uns dos outros para a cadeia produtiva e uma crise como a guerra, impacta a economia em todo o mundo e vai muito além do cenário político-econômico brasileiro: “Tudo o que acontece lá fora, acaba que nós sentimos aqui no Brasil” destaca a especialista. Sobre as decisões na economia brasileira, Juliane Radael acredita que independentemente de quem vença essas eleições ano que vem, medidas como a PEC dos combustíveis – que desencadeou a deflação no mês de julho e agosto – e que dura até dezembro e as “PECs da bondade” com o Auxílio Brasil, Auxilio Gás e etc. vão impactar a economia lá na frente: “Para o ano que vem existe uma inflação contratada”.
A especialista destaca que a meta do Banco Central para 2023 é de que a inflação seja de 3,75%, no entanto, de acordo com o Boletim Focus, o percentual pode chegar a 5% e especialistas acreditam que a inflação venha ainda maior com a alta nas taxas de juros, portanto, empréstimos não são favoráveis ano que vem. Já quem tiver para emprestar ao banco, se dará melhor: “A pessoa que já tem dinheiro na poupança e conta corrente – é um ótimo cenário para investir, emprestar;
Quem precisa pegar dinheiro emprestado vai ter que desembolsar juros maiores para pagar empréstimos”, destaca Radael sobre os dois cenários.
Juliane conta que investimentos seguros como a renda fixa e o tesouro direto são escolhas mais promissoras e que quem tem dinheiro na poupança está perdendo dinheiro para a inflação e da um conselho “tire da poupança e da conta corrente e invista”.
Sobre mitos a respeito do investimento, Juliane rebate que a afirmação de que é preciso muito dinheiro para investir e exemplifica que no tesouro IPCA + com uma taxa um pouco maior que 6% é possível investir com apenas R$ 32 reais: “Vamos quebrar essa crença de que investimento é coisa de rico”. enfatiza. Juliane fala também sobre a importância de atrelar a decisão de investir à um objetivo para estabelecer e cumprir o prazo determinado do retorno, já que, por exemplo, cada titulo no tesouro direto tem um vencimento que o investidor escolhe (para 2026, para 2029 e 2055).
Outro empecilho para a população em geral é que não dá para investir tendo necessidades mais básicas para cumprir. No entanto, Juliane Radael conta que há casos de pessoas com “salario grandioso” que não tem reserva de emergência e cenários em que a pessoa ganha R$ 2.000 reais por mês e investe: “A mudança de mentalidade é primordial. Não é papo de doido investir nesse momento”.
Seja para fazer uma viagem ou colher uma boa aposentadoria, a motivação pela qual alguém toma a decisão de investir, assim como o investimento certo podem ser obtidos a partir da avaliação do perfil do investidor e do aparato financeiro que ele já tem: “Eu não aconselho nenhuma pessoa a realizar investimentos a longo prazo se ela não tiver uma reserva de emergência antes.” destaca Juliane no caso de investimentos a longo prazo.
Para estabelecer uma reserva de emergência, o investidor em potencial deve se atentar ao gasto mensal. Juliane orienta que verificar os gastos fixos para ter a reserva de emergência é necessário em um calculo de 6 meses para pessoas com renda fixa e 12 meses, no caso de profissionais autônomos: “A reserva vem para que você te atender em um momento de imprevisto, de emergência. Não para pagar IPTU, para IPVA (gastos que acontecem todos os anos. Vem para te ajudar num momento em que algo aconteceu e estava completamente fora do previsto. Por exemplo, quando você tem um problema na sua casa e precisa fazer alguma reforma. É para quando você bate o carro ou para quando fura o pneu do seu carro.”, destaca a especialista.
Outra decisão inteligente para investir dinheiro é separar a quantia que será investida no quinto dia útil e não separar o que sobrar para o fim do mês. “O nosso cérebro é sabotador e quer o prazer imediato. Então eu aconselho as pessoas que querem sair da vida de pagamento de boletos e de dívidas que pague-se primeiro. O seu pagamento é o seu investimento. Recebeu o salário, tire o valor do investimento e viva com o que sobrou”.
Sobre investimentos a longo prazo como o tesouro, Juliane Radael pontua que não apresentam risco de perda do valor investido e que o investidor tem o saldo de contratação garantido, juntamente aos lucros que venha obter ao fim do período: “Hoje quando você comprar o tesouro 2035, lá em 2035 você vai receber essa taxa contratada hoje, você tem garantida a taxa. Durante este período existe a marcação a mercado. Hoje paga-se por um titulo determinado valor, de acordo com a oscilação com a taxa de juros, esse valor pode aumentar ou diminuir. Se vc resgatar o valor em 2035, vai resgatar com o valor que o mercado promove naquele ano. Se a taxa aumentou, o valor do título diminuiu. Se resgatar antes (o investidor) terá prejuízo. Se levar até o vencimento, você regata o valor contratado. Vender antecipadamente compensa se a pessoa constatar que o mercado está pagando mais, no entanto, tudo não se perde, há apenas a marcação do mercado que valoriza ou desvaloriza no percurso”, conta.
Sobre o estilo de vida de quem investe, a especialista destaca perfis diferentes. Há o investidor comum investidor que compra e vende a longo prazo e há o Day Trader, o investidor profissional que compra e vende títulos no mesmo dia, acompanha o mercado o dia todo, vê gráficos, analisa expectativa do mercado para uma determinada ação e vende mais caro no final do pregão ou, acreditando que vai cair, mais barato para manter-se em valor. Juliane afirma que a população em geral que tem a visão de investir para o longo prazo por uma meta, não precisa acompanhar o mercado diariamente, pode, uma vez por mês, fazer um nov balanceamento, avaliação do mercado.
Para falar mais com a Juliane Radael é só entrar no Instagram @julianeradael. Lá ela dá dicas financeiras e abre o direct para duvidas.
Por Rodrigo de Freitas