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Por Henrique Ferian
Três Lagoas não estava no roteiro definitivo da vida de Marcelo Serralva. Pelo menos não naquele dia de janeiro. Músico há mais de três décadas, educador musical há dez anos, cantor, compositor, multi-instrumentista e palestrante que percorre cerca de 50 cidades por ano, ele chegou ao município para cumprir mais um compromisso profissional. Saiu da rotina itinerante para viver um dos capítulos mais duros – e ao mesmo tempo mais transformadores – de sua história.
Carioca da capital, radicado em Bebedouro (SP), Marcelo desembarcou em Três Lagoas para ministrar uma palestra pela Secretaria Municipal de Educação. Viajava com a esposa Marissa, sua produtora e parceira de vida há 17 anos, e a filha Mariane, de 11 anos. Pouco antes do início da palestra, o inesperado: Marissa sofreu um AVC.
O que era trabalho virou urgência. Hospital Regional, UTI, incertezas. Foram dez dias de internação intensiva, outros dez em quarto hospitalar. Um período de medo, angústia e decisões difíceis, vivido longe de casa. Foi também ali que Marcelo começou a compartilhar sua rotina nas redes sociais – não como estratégia, mas como desabafo. E Três Lagoas respondeu.
A mobilização foi espontânea. Pessoas que ele nunca havia visto passaram a enviar mensagens, comida, convites para refeições, palavras de apoio. No mercado, na rua, no hospital, sempre alguém perguntava por Marissa. Quando surgiu a possibilidade de transferência para Bebedouro em uma ambulância, Marcelo recusou. “Algo me dizia para ficar”, contou. E ficou.
Enquanto a esposa ainda estava na UTI, surgiu o primeiro convite que mudaria o rumo daquela estadia forçada. Diógenes Marques, idealizador do espaço Mata Cascalheira, procurou Marcelo e ofereceu um local para que ele pudesse desenvolver atividades musicais quando estivesse pronto. Naquele momento, ainda não era possível. Mas a semente estava plantada.
Mesmo em meio ao caos, Marcelo decidiu manter o compromisso profissional. No dia em que sua esposa foi transferida para a UTI, o médico pediu que ele se retirasse por duas horas. Em vez de permanecer no hospital, abalado, ele foi cumprir a palestra. Subiu ao palco acompanhado da filha, emocionado, sem lembrar depois de uma palavra sequer do que disse. Falou da própria dor, cantou músicas que traduziam o momento e levou para a sala de aula aquilo que defende como essência da educação: emoção, afeto e humanidade. Quem assistiu garante que foi uma das palestras mais impactantes já realizadas.
Essa capacidade de transformar adversidade em discurso, dor em aprendizado, não nasceu ali. É resultado de uma trajetória construída com improviso, resiliência e escolhas arriscadas.
Há dez anos, Marcelo vivia outro ponto de virada. Endividado, tocando em bares e dando aulas, decidiu tentar algo inédito durante as Olimpíadas do Rio de Janeiro, em 2016: tocar na rua. Criou o “Homem Banda”, projeto em que executa vários instrumentos simultaneamente. Em seis meses, reorganizou a vida financeira, quitou dívidas e comprou à vista um Fusca azul 1972 – que virou símbolo do personagem e da fase. A performance chamou atenção da mídia nacional, levou-o a programas como Bom Dia Brasil, Balanço Geral e Caldeirão, onde ganhou destaque e prêmio.
Foi ali que surgiu outro caminho: as palestras. A história do músico de rua que se reinventou virou conteúdo para escolas, especialmente na educação infantil. Marcelo passou a falar sobre criatividade, resiliência, inclusão e humanidade, usando a música como linguagem central.
A musicalidade, aliás, nunca esteve presa a padrões. Autodidata, com passagem breve por estudos formais, Marcelo sempre defendeu que não existem instrumentos “menores”. Pandeiro, tambor, galhos sonoros, instrumentos construídos com madeira reaproveitada: tudo pode ser música. Tudo pode ser acesso. Sua missão passou a ser mostrar que a música não é dom exclusivo, mas esforço, persistência e acolhimento das diferenças.
Marissa sempre esteve no centro dessa construção. Surda, oralizada, profundamente musical, ela foi quem o incentivou a voltar aos palcos, a vender CDs, a organizar a carreira. Tornou-se produtora executiva, empresária, responsável por contratos, logística e estrutura. Uma produtora musical surda, em um meio que raramente oferece espaço. Marcelo não tem dúvidas: sem ela, estaria até hoje no barzinho. Com ela, percorreu o Brasil.
O AVC interrompeu esse ritmo. Viagens canceladas, agenda reduzida, uma nova realidade. Durante os dias no hospital, Marcelo compôs oito músicas usando inteligência artificial para criar arranjos. Canções sobre cuidado, calma, fé e esperança. Um álbum pensado para acolher quem sofre, inspirado na tristeza silenciosa dos corredores hospitalares. Um trabalho que será disponibilizado gratuitamente.
Com a alta hospitalar, veio outra decisão: permanecer em Três Lagoas. A família foi acolhida em uma casa cedida por seguidores, à beira do rio Sucuriú. A filha se adaptou rapidamente, encantada com a liberdade, com as crianças do condomínio, com o contato com a natureza. Marissa iniciou a reabilitação, ainda em cadeira de rodas, mas avançando. A cidade deixou de ser cenário provisório e passou a ser possibilidade de raiz.
É nesse contexto que nasce a parceria com o Mata Cascalheira. O projeto vai além da música. Prevê rodas musicais gratuitas, oficinas de musicalização, marcenaria infantil, construção de instrumentos com materiais reaproveitados, tudo em um espaço inserido em área de proteção ambiental. Inclusão é palavra-chave: crianças típicas e atípicas, autistas, surdas, com deficiência ou não, todas juntas. Sem cobrança de entrada, sem hierarquia, sem exclusão.
Para viabilizar o projeto, Marcelo também abrirá uma pequena loja de artesanato no local, reunindo trabalhos autorais e de artesãos de Três Lagoas. A ideia é simples: o comércio sustenta o projeto social, garantindo acesso gratuito às atividades.
Paralelamente, ele prepara a abertura de um ateliê no centro da cidade, na região da Capitão Olinto Mancini, onde irá construir instrumentos, ministrar oficinas e, futuramente, aulas regulares de musicalização e marcenaria sonora.
Marcelo Serralva não romantiza a dor que viveu. Reconhece que houve ataques, críticas, gente ruim no caminho. Mas escolheu direcionar o olhar para quem estendeu a mão. Para ele, o mundo não é bom nem ruim: é ambos, o tempo todo. O que muda é onde se decide focar.
Três Lagoas, nesse recorte da vida, foi abrigo. Foi rede. Foi recomeço. E, ao que tudo indica, não será apenas uma passagem. Será capítulo definitivo de uma história que começou nas ruas, atravessou palcos, hospitais e agora encontra sentido no coletivo, na inclusão e na música como ferramenta de cuidado.
Marcelo Serralva segue nas redes sociais, mas agora também presencialmente, todos os fins de semana, no Mata Cascalheira. De graça. De coração aberto. Com a certeza de que, mesmo nos momentos mais difíceis, ainda vale a pena acreditar nas pessoas.
Confira a Entrevista: