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Professor José Bento, presidente do Conselho Municipal dos Direitos do Negro, participa do Jornal da Manhã da Jovem Pan para discutir a importância da data e os desafios da luta antirracista
Por Henrique Ferian | 20 de novembro de 2025
Um dia de debate 20 de novembro, feriado nacional do Dia da Consciência Negra, uma reflexão profunda sobre racismo estrutural, desigualdade social e a necessidade de políticas públicas efetivas para a população negra. O professor José Bento, presidente do Conselho Municipal dos Direitos do Negro, foi o convidado especial do Jornal da Manhã da Jovem Pan Três Lagoas para debater a data e seus significados.
A origem da data
O Dia Nacional de Zumbi e da Consciência Negra foi concebido em 1971, formalizado nacionalmente em 2003 como efeméride no calendário escolar, instituído como data comemorativa em 2011 e oficializado como feriado nacional em 21 de dezembro de 2023. A escolha do dia 20 de novembro não é casual: a data marca a morte de Zumbi dos Palmares, líder do Quilombo dos Palmares que nasceu livre, foi escravizado aos seis anos e faleceu em 1695.
A proposta surgiu em Porto Alegre, quando o poeta, professor e pesquisador gaúcho Oliveira Silveira sugeriu uma data que comemorasse o valor da comunidade negra, em reunião do Grupo Palmares, associação que reunia militantes e pesquisadores da cultura negra brasileira. Em 2003, a Lei nº 10.639 tornou obrigatório o ensino da história afro-brasileira nas escolas, e em 2011, a ex-presidente Dilma Rousseff oficializou a data como Dia Nacional de Zumbi dos Palmares e da Consciência Negra.
Racismo estrutural: uma herança colonial
Durante a entrevista, o professor Bento trouxe à tona a questão do racismo estrutural, explicando suas raízes históricas. “Para falar da organização desse processo no Brasil, nós temos que ir um pouco atrás”, afirmou. Ele destacou como a escravidão moldou profundamente a sociedade brasileira, criando desigualdades que persistem até hoje.
O convidado citou exemplos históricos que revelam a continuidade da exclusão. Após a Guerra de Canudos, soldados negros que lutaram ao lado das forças republicanas foram impedidos de receber as terras prometidas no Rio de Janeiro. “Eles subiram para o Morro da Providência, e lá eles estão até hoje”, relatou Bento, explicando a origem das favelas brasileiras e seu nome, derivado de uma planta da Bahia.
Segundo o professor, cerca de 75% da população que vive em favelas no Brasil é negra, reflexo direto dessa exclusão histórica. “Isso está entranhado, permeou a vida do brasileiro e surgiu aí então o racismo institucionalizado”, analisou.
Escravidão moderna e desafios contemporâneos
O debate também abordou formas modernas de escravidão. Bento alertou para casos de bolivianos, chineses e até brasileiros submetidos a condições análogas à escravidão no país. “Parece que só mudaram as figuras. O modus operandi parece que continua existindo”, afirmou o professor, chamando atenção para a necessidade de combater essas práticas.
Em Três Lagoas, a questão do racismo permanece atual. Bento relatou que na véspera da entrevista havia acompanhado um caso de racismo dentro de uma escola municipal. “Um jovem saudável, atleta, sofrendo racismo dentro da escola. Isso mexe com o psicológico da pessoa. Menino já não queria ir mais para a escola, não quer mais assistir aula, não quer mais jogar o futebol dele”, contou, destacando o impacto devastador da discriminação.
Educação como ferramenta de transformação
Para o professor, a educação é fundamental na luta contra o racismo. “Eu acredito muito, por ser um educador, na mudança das pessoas através da educação. Para dar uma educação de qualidade, você tem que estar no banco escolar”, defendeu.
Bento ressaltou que a escola é reflexo da sociedade e local de construção, não de perfeição. Quando há racismo entre estudantes, a origem está no ambiente familiar e nas influências externas. “A escola tem o dever de mudar essa situação que acontece na sociedade”, afirmou.
Reconhecimento e políticas públicas em Três Lagoas
Na terça-feira, 18 de novembro, a Câmara Municipal de Três Lagoas concedeu o diploma Zumbi dos Palmares a personalidades negras que contribuem para o desenvolvimento da cidade. Bento destacou a importância desse reconhecimento para dar visibilidade a pessoas que muitas vezes passam despercebidas.
O presidente do Conselho defendeu ainda a adesão municipal ao Sinapir (Sistema Nacional de Promoção da Igualdade Racial), programa do governo federal que apoia municípios na implementação de políticas de igualdade racial. “Precisamos instituir uma estrutura governamental que cuide dessas políticas públicas, financiadas com aporte do governo federal”, argumentou.
Transição de liderança e continuidade da luta
Após anos de dedicação, o professor Bento anunciou que deixará a presidência do Conselho Municipal dos Direitos do Negro ainda em 2025. “Eu acho que isso é muito importante, a rotatividade de lideranças. Temos uma gama de juventude negra que pode contribuir, dar continuidade”, afirmou.
A sucessora de parte da equipe, Luciana Nascimento, foi elogiada por Bento como “uma ativista do movimento negro espetacular, que está cumprindo um papel fantástico”.
Mensagem de irmandade
Ao encerrar sua participação, o professor deixou uma mensagem de união. “A mensagem é de irmandade. O que é ser irmão? É viver coletivamente com as nossas diferenças, com os nossos pensamentos, com os nossos credos. Cada um com a sua fé, mas nós temos que viver juntos nesse planeta”, declarou.
“Ninguém é melhor do que ninguém aqui. Vamos respeitar o próximo e olhar o próximo como um ser humano”, completou Bento, reforçando a necessidade de uma sociedade mais justa e igualitária.
Entenda a data
O primeiro Dia da Consciência Negra comemorado oficialmente como feriado em todo o país aconteceu em 2024, celebrado pelos 26 estados e pelo Distrito Federal. Mais do que um dia de folga, a data representa um momento de reflexão sobre a contribuição dos negros para a formação do Brasil e sobre as desigualdades raciais ainda existentes.
A luta antirracista é diária e contínua, e o Dia da Consciência Negra serve como marco para amplificar esse debate, promovendo a valorização da população negra que constitui e enriquece o país.
Confira a Entrevista: