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Doenças do coração são silenciosas e exigem checkup regular orienta médico

Cardiologista alerta para a importância da prevenção e os riscos do uso indiscriminado de testosterona. Dr. Ulisses Calandrin destaca que doenças cardiovasculares começam na infância e reforça necessidade de checkups regulares

Por Henrique Ferian

Em entrevista ao Jornal da Manhã da Jovem Pan Três Lagoas na sexta-feira (16), o cardiologista Dr. Ulisses Calandrin abordou temas cruciais sobre saúde cardiovascular, desde a prevenção precoce até os perigos emergentes relacionados ao uso de hormônios sem orientação adequada.

Prevenção: a chave para a saúde do coração

O médico foi enfático ao destacar que a prevenção cardiovascular deve começar desde cedo. “A aterosclerose não começa somente na vida adulta. Estudos mostram que ela tem início na infância, especialmente quando há fatores de risco presentes”, alertou.

Entre os principais fatores de risco cardiovascular, Dr. Ulisses listou: hipertensão arterial, colesterol elevado (principalmente o LDL), triglicerídeos altos, tabagismo, obesidade, sedentarismo, diabetes e histórico familiar de doenças cardíacas.

Histórico familiar exige atenção redobrada

Quando há casos de infarto ou AVC na família, especialmente em homens com menos de 55 anos ou mulheres com menos de 65 anos, os descendentes devem manter acompanhamento cardiológico regular. “A hereditariedade associada a outros fatores de risco aumenta significativamente as chances de eventos cardiovasculares precoces”, explicou o cardiologista.

Obesidade infantil: um problema crescente

O médico demonstrou preocupação com o aumento da obesidade infantil. “Vemos crianças com alimentação inadequada, baseada em industrializados, desenvolvendo problemas que antes eram exclusivos de adultos. Isso contribui para que apresentem problemas de saúde cardiovascular mais precocemente”, afirmou.

Doenças silenciosas: o perigo invisível

Dr. Ulisses alertou que muitas doenças cardiovasculares são silenciosas. “Hipertensão, diabetes e colesterol alto frequentemente não apresentam sintomas. Muitos pacientes descobrem que têm colesterol elevado apenas no primeiro infarto ou AVC”, revelou.

Epidemia de complicações por testosterona

Um dos pontos mais impactantes da entrevista foi o alerta sobre o uso indiscriminado de testosterona. “Isso se tornou uma verdadeira epidemia. Atendemos casos todos os dias no consultório”, relatou o médico.

Segundo Dr. Ulisses, o uso inadequado de testosterona pode causar cinco alterações cardiovasculares graves:

  1. Aumento da viscosidade sanguínea, favorecendo a formação de coágulos
  2. Arritmias cardíacas, principalmente fibrilação atrial (que pode levar ao AVC)
  3. Hipertensão arterial
  4. Aceleração da formação de placas de gordura nas artérias
  5. Remodelamento cardíaco, podendo causar insuficiência cardíaca irreversível

“Muitas pessoas usam testosterona pensando apenas na estética, no desenvolvimento muscular. Não sabem que os níveis acima de 900-1000 são extremamente prejudiciais ao coração”, advertiu. “E o pior: a insuficiência cardíaca causada pelo uso de testosterona, na maioria dos casos, é irreversível mesmo após a suspensão do hormônio.”

Dissecção de aorta: emergência médica grave

O cardiologista também explicou sobre a dissecção aguda de aorta, condição que vitimou recentemente uma moradora de Três Lagoas, de 42 anos. “É uma emergência absoluta. A cada hora de atraso no tratamento cirúrgico, há redução de 10% na sobrevida do paciente”, alertou.

A doença se manifesta como uma dor intensa no peito, semelhante a uma facada, que irradia para as costas. Os principais fatores de risco são hipertensão não controlada e formação de placas de gordura na aorta. “Na suspeita de dissecção, o exame de tomografia deve ser feito imediatamente. Não dá para esperar”, enfatizou.

Como fazer o checkup cardiovascular

Dr. Ulisses explicou que não existe uma “receita de bolo” para o checkup. “Individualizamos cada paciente, considerando idade, fatores de risco e histórico familiar. Nem todos precisam dos mesmos exames ou da mesma periodicidade de acompanhamento.”

Pacientes de baixo risco podem ser avaliados com intervalos maiores, enquanto aqueles de alto risco necessitam consultas a cada 4 ou 6 meses. “Calculamos o risco cardiovascular através de algoritmos internacionais e definimos a melhor estratégia para cada pessoa”, detalhou.

Mudança de estilo de vida pode evitar medicamentos

Para pacientes de baixo risco cardiovascular, mudanças no estilo de vida podem ser suficientes. “Alimentação saudável, atividade física regular e controle de peso fazem enorme diferença. Muitos pacientes conseguem evitar medicamentos quando levam a prevenção a sério”, destacou o médico.

Hipertensão: novos critérios geram dúvidas

O cardiologista esclareceu as mudanças recentes nos critérios de hipertensão. “A hipertensão continua sendo diagnosticada a partir de 140/90 mmHg (14 por 9). Porém, valores a partir de 120/80 mmHg (12 por 8) acendem um alerta amarelo, indicando necessidade de acompanhamento mais próximo”, explicou.

Aparelhos de pressão caseiros: cuidados necessários

Sobre os aparelhos domésticos de medição de pressão, Dr. Ulisses foi cauteloso. “Os aparelhos de braço são superiores aos de pulso. Mas eles não são para diagnóstico, servem apenas para acompanhamento em casa. Sofrem descalibração fácil com quedas e não funcionam adequadamente em pessoas com arritmias”, alertou.

Qualidade no atendimento médico

O cardiologista também manifestou preocupação com a qualidade do atendimento médico. “Está faltando uma anamnese bem feita, está faltando a essência do ser médico. Com a abertura de muitas faculdades e profissionais vindos de outros países, vemos a qualidade caindo, e isso preocupa muito”, afirmou.

Mensagem para 2026

Ao encerrar a entrevista, Dr. Ulisses deixou um recado para o novo ano: “As doenças não são deletadas no início do ano. Elas já vêm acontecendo dos anos anteriores. A promessa para 2026 deve ser uma avaliação completa da sua saúde, exames laboratoriais atualizados e, sem dúvida, contar sempre com um cardiologista.”

Confira a Entrevista:

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