
Preencha os campos abaixo para submeter seu pedido de música:

Suspensão da lei que penalizava ocupações e Campanha da Fraternidade 2026 colocam autoridades diante de uma mesma pergunta: se Deus veio morar entre nós, que cidade estamos ajudando a construir?
Por Henrique Ferian
A recente suspensão da Lei Municipal nº 3.717, que restringia o acesso a programas habitacionais para pessoas envolvidas em ocupações, provocou um embate político intenso em Três Lagoas. De um lado, o discurso da ordem urbana e do combate às ocupações. Do outro, a defesa do direito à moradia como princípio constitucional e humano.
Mas, enquanto o debate jurídico e ideológico se acirra na Câmara, um outro espaço levanta a mesma questão sob um ângulo mais profundo: o da consciência.
A Campanha da Fraternidade 2026, lançada pela Igreja Católica com o tema da moradia e o lema “Ele veio morar entre nós”, coloca o assunto no centro da reflexão social e espiritual do país. E faz isso de forma direta: não apenas como política pública, mas como compromisso moral.
E é exatamente nesse ponto que o debate político local ganha uma dimensão maior do que leis, liminares ou discursos partidários.
Porque a pergunta deixa de ser apenas administrativa — e passa a ser ética.
A Igreja propõe algo que vai além da discussão sobre regularização fundiária, ocupações ou programas habitacionais. Ela propõe uma revisão do olhar.
Moradia não é apenas um teto. É dignidade. É pertencimento. É acolhimento.
E mais: é também reflexo do modo como uma sociedade trata os mais vulneráveis.
A Campanha da Fraternidade não nasce como um debate técnico. Ela nasce como um chamado à prática da fé. Segundo a reflexão pastoral, a espiritualidade cristã não pode permanecer confinada a ritos, celebrações ou experiências individuais. Ela exige ação concreta no mundo real.
Isso significa que a fé se mede também pela forma como se responde à pobreza, à exclusão e à precariedade habitacional.
E é nesse ponto que a mensagem se torna inevitavelmente política — não no sentido partidário, mas no sentido de responsabilidade pública.
A campanha é explícita ao apontar que governantes, legisladores e autoridades públicas devem refletir sobre o direito à moradia e fortalecer políticas habitacionais.
Mas o argumento vai além da gestão pública. Ele toca na coerência pessoal.
Em uma sociedade onde muitos agentes públicos se declaram cristãos, participam de celebrações religiosas, professam valores de fé e invocam Deus em seus discursos, a questão da moradia deixa de ser apenas uma pauta social — e passa a ser um teste de coerência moral.
Se a fé cristã ensina que Deus assumiu a precariedade humana e veio habitar entre as pessoas, como justificar políticas que erguem barreiras antes de construir soluções?
Se a caridade cristã é ação concreta, como permanecer indiferente diante de famílias que vivem em condições que mal podem ser chamadas de moradia?
Se o Evangelho ensina a acolher, como transformar o acesso à dignidade em um caminho cada vez mais difícil?
O confronto entre vereadores sobre a lei suspensa revelou visões opostas sobre como lidar com ocupações urbanas.
Uma corrente entende que restrições são necessárias para evitar desordem e proteger o espaço público.
Outra afirma que penalizar ocupações é, na prática, punir a pobreza.
Esse conflito é real, complexo e legítimo. Mas a Campanha da Fraternidade desloca o eixo da discussão.
Ela não pergunta apenas como controlar o problema.
Ela pergunta como responder à dor que o gera.
Não se trata apenas de regular território. Trata-se de reconhecer humanidade.
Na reflexão pastoral, o verdadeiro cristão não é indiferente. Ele se incomoda com a injustiça. Não reage com violência, mas também não se acomoda.
A fé autêntica, segundo essa visão, produz movimento: conhecer, celebrar e agir.
Agir — eis o ponto central.
Não basta reconhecer que moradia é um direito.
Não basta declarar apoio a políticas habitacionais.
Não basta defender princípios em discurso.
A coerência exige facilitar caminhos, não erguer obstáculos.
A Campanha da Fraternidade não se dirige apenas aos fiéis. Ela se dirige à sociedade inteira — especialmente a quem exerce poder.
Prefeitos. Vereadores. Secretários. Gestores públicos.
Pessoas que tomam decisões concretas sobre leis, programas e prioridades orçamentárias.
A mensagem é clara: quem tem autoridade também tem responsabilidade moral.
E essa responsabilidade não nasce apenas da Constituição ou da função pública. Nasce da própria consciência — sobretudo quando essa consciência se declara guiada pela fé.
A suspensão da lei reacendeu um debate jurídico.
A Campanha da Fraternidade reacende um debate moral.
Ambos falam de moradia.
Mas apenas um pergunta diretamente sobre compaixão, coerência e responsabilidade diante do próximo.
Se Deus veio morar entre nós — como afirma o lema da campanha — então a questão que fica para quem governa é inevitável:
Estamos ajudando as pessoas a ter onde morar…
ou estamos apenas decidindo onde elas não podem?
Entre normas e consciências, a cidade continua esperando a resposta.