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Projeto social em Três Lagoas une fé, acolhimento e tratamento para recuperar dependentes químicos e reconstruir famílias
Por Henrique Ferian
A dependência química segue sendo um dos maiores desafios enfrentados por famílias em todo o país e, em Três Lagoas, um trabalho desenvolvido há mais de uma década tem se destacado por atuar diretamente na recuperação de pessoas que enfrentam o vício em drogas e álcool. À frente da iniciativa está o pastor Paulo Matos, da Igreja Evangélica Missões Brasa Viva, que há 15 anos atua no município e, há mais de 11 anos, lidera projetos voltados à restauração de dependentes químicos.
O principal projeto é o “Resgate Restaurando Vidas”, voltado ao público masculino. Já para as mulheres, o atendimento é realizado por meio do projeto “Menina dos Olhos de Deus”, criado há cerca de três anos para atender a crescente demanda feminina. Segundo o pastor, o trabalho começou de forma simples, ainda nas ruas da cidade, antes mesmo da igreja ter um espaço físico. “Nós iniciamos com cultos na praça da rodoviária, oferecendo alimento e ouvindo as pessoas. Foi ali que vimos de perto a necessidade de ajudar quem estava preso nas drogas e queria mudar de vida”, relembra.
Com o passar do tempo, o trabalho foi se estruturando e se transformou em um projeto de recuperação que hoje atende dezenas de pessoas. O período de internação é, em média, de nove meses, tempo considerado essencial para uma reconstrução completa. De acordo com o pastor, o processo vai muito além da abstinência. “A gente precisa entender onde tudo começou, se foi um trauma, uma rejeição ou outro problema emocional. Só assim conseguimos tratar a raiz e não apenas o efeito”, explica.
Ele destaca que o diferencial do trabalho está na integração entre tratamento e fé. “Muitas vezes a pessoa sai de uma clínica sem usar drogas, mas volta a recair porque continua vazia por dentro. O evangelho devolve a esperança, a vontade de viver. Isso faz toda a diferença”, afirma. O próprio pastor conta que sua história pessoal reforça essa visão, já que conheceu a fé em um momento difícil de sua vida, enquanto estava preso, quando já havia perdido a perspectiva de futuro.
Atualmente, o projeto atende cerca de 20 a 25 internos por ciclo e enfrenta desafios constantes para se manter. Os custos envolvem alimentação, estrutura e despesas básicas, e não há apoio do poder público. “Já buscamos ajuda municipal e estadual, mas não tivemos retorno. O projeto é mantido pela igreja e por parceiros que contribuem como podem”, relata. Mesmo com as dificuldades, ele afirma que nunca faltou o necessário para manter o atendimento.
A equipe é composta por um pequeno grupo de pessoas com ajuda de custo, além de voluntários e apoiadores que contribuem com doações, principalmente de alimentos. Ainda assim, o pastor ressalta que o maior desafio não é apenas estrutural, mas humano. “Nem todos querem ajuda. No começo, levávamos muitas pessoas da rua, mas a maioria não permanecia. A recuperação começa quando a pessoa decide mudar”, explica.
Ao longo dos anos, muitas histórias de transformação marcaram o projeto. Pessoas que chegaram sem perspectivas conseguiram reconstruir suas vidas, voltar ao convívio familiar e até se reinserir no mercado de trabalho. “Temos casos de pessoas que hoje têm empresa, família e uma nova história. Isso não tem preço”, destaca.
Outro ponto de atenção é o aumento no número de jovens e mulheres envolvidos com drogas. Segundo o pastor, muitos começam ainda na adolescência. “Hoje vemos jovens de 14, 15 anos iniciando nesse caminho. E muitos chegam até nós já com 18 ou 20 anos, bastante comprometidos”, afirma. Ele também alerta que o problema atinge todas as classes sociais, desde pessoas em situação de vulnerabilidade até empresários e profissionais formados.
Além da recuperação, a igreja também pretende atuar na prevenção. Um novo projeto social voltado para crianças está sendo preparado e deve oferecer atividades como ensino musical, esportes, teatro e acompanhamento familiar. A proposta é fortalecer a base das famílias e evitar que novos casos surjam. “O que mais falta hoje é tempo entre pais e filhos. A educação está sendo terceirizada, e isso abre espaço para influências negativas”, pontua.
Durante a entrevista, também foi levantada a falta de integração entre projetos locais e o poder público, já que muitas vezes vagas são contratadas em clínicas de outras cidades. Para o pastor, isso poderia ser diferente. “Temos estrutura e experiência aqui. Seria importante fortalecer o que já existe na cidade”, afirma.
Famílias que enfrentam problemas com dependência química podem procurar ajuda diretamente na Igreja Missões Brasa Viva, localizada na Rua Generoso Siqueira, 958. O contato também pode ser feito pelo telefone (67) 99287-8892. Os cultos acontecem às quartas-feiras, às 19h, e aos domingos, às 8h30 e às 18h30. Segundo o pastor, o atendimento inclui orientação e encaminhamento para tratamento. “Se a família ou a pessoa quiser ajuda, nós estamos prontos para acolher. Sempre existe um caminho para recomeçar”, finaliza.
Confira a entrevista: