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REPORTAGEM ESPECIAL | INFRAESTRUTURA URBANA | TRÊS LAGOAS – MS
Chuva forte foi suficiente para expor anos de descaso: moradores perderam móveis, dormiram com água dentro de casa e não recebem sequer uma visita do poder público
A madrugada de terça feira dia 24 de fevereiro ficará marcada na vida de famílias bairro Nossa Senhora Aparecida, na rua Maria Queiroz Moreira a chuva forte que cai em Três Lagoas foi o suficiente para revelar o que anos de negligência municipal construíram: um sistema de drenagem falido, galerias pluviais entupidas e sem manutenção, e uma população completamente abandonada pelo poder público, as águas invadiram casas durante a madrugada, destruíram móveis, eletrodomésticos e pertences acumulados por anos de trabalho — e, nenhum representante da Prefeitura de Três Lagoas apareceu para avaliar os danos ou oferecer qualquer tipo de assistência.
⚠ Se uma hora de chuva causa esse nível de destruição, o que aconteceria com quatro horas de temporal?
Os moradores foram surpreendidos durante a madrugada. Em muitos casos, só perceberam o alagamento quando já era tarde demais. Um dos moradores relatou que acordou graças ao latido insistente do cachorro — que farejou a água antes que qualquer alarme pudesse soar.
“A gente paga imposto, o IPTU vence agora e ninguém aparece. Nem prefeito, nem vereador, nem secretário de obras. Uma hora de chuva virou esse caos. Se fossem quatro horas, a gente ia morrer afogado.”
O nível da água dentro das residências chegou a aproximadamente meio metro em alguns pontos. Além do bairro Nossa Senhora Aparecida, outras regiões da cidade também registraram elevação do nível das águas, o que indica que o problema de drenagem não é isolado — é sistêmico.
A situação atual não é fruto de falta de investimento histórico. Segundo Thomaz Kozuki morador a 20 anos do local, obras de drenagem foram realizadas em gestões anteriores, com a instalação de galerias de grande porte na região da João Dantas. O sistema funcionou por um período — mas há cerca de três anos os alagamentos voltaram com força.
A pergunta que ninguém da Prefeitura parece querer responder é simples: o que foi feito da manutenção dessas galerias? Quem é o responsável pela limpeza periódica dos bueiros e tubulações? Por que o sistema que um dia funcionou passou a falhar?
A moradora Denilde, que vive na rua há cerca de 15 anos, afirma que em chuvas anteriores a água escoava rapidamente. A mudança de comportamento das águas sugere, segundo ela, entupimento das galerias por acúmulo de pedras, lixo e detritos — um problema que deveria ser prevenido com manutenção regular e programas de limpeza urbana.
“Foi calamidade pública. Quando abriram a porta, a água tomou conta. Antes, a água escoava. Agora não vai a lugar nenhum.”
Moradores apontam uma contradição grave na política de obras municipais: enquanto o asfalto avança pela cidade como vitrine de gestão, a infraestrutura subterrânea — que define se a cidade vai ou não alagar — talvez não seja a ideal.
“Hoje se preocupa em entregar cidade asfaltada, mas não em fazer drenagem robusta. Faz o asfalto, mas não tem para onde a água escoar.”
Essa lógica é tecnicamente catastrófica. O asfaltamento impermeabiliza o solo, aumentando o volume de escoamento superficial durante chuvas. Sem ampliação proporcional da capacidade de drenagem — galerias maiores, bocas de lobo em quantidade suficiente e manutenção contínua — cada novo metro de asfalto se torna, paradoxalmente, um fator de risco para alagamentos.
Especialistas em urbanismo e drenagem são unânimes: obras viárias precisam ser acompanhadas de investimento em infraestrutura hídrica. O que se observa em Três Lagoas, no entanto, é o oposto: priorização da obra visível em detrimento da infraestrutura essencial.
Os moradores atingidos não têm seguro, não receberam indenização e não foram visitados por nenhuma equipe de assistência social ou de obras. Os prejuízos materiais são concretos e documentados:
Na residência de uma inquilina da moradora Denilde, os seguintes itens foram destruídos pela água: guarda-roupa, sofá, cômoda e outros móveis e pertences pessoais. Segundo a proprietária, móveis modernos não resistem ao contato prolongado com a umidade — e não há como recuperá-los.
“Estragou bastante, não tem como recuperar.”
Em outra residência, conforme relatado por um morador, um vizinho perdeu praticamente todos os bens domésticos, incluindo geladeira, guarda-roupa e móveis. São perdas que podem representar anos de economia para famílias de renda média e baixa — e que a Prefeitura, até o momento, sequer reconheceu oficialmente.
“Graças a Deus nossa integridade física está bem, mas é vergonhoso ver o que aconteceu com o resto do pessoal.”
Horas depois do alagamento, o cenário era de desolação e revolta. Moradores realizavam por conta própria a limpeza dos imóveis, tentavam desobstruir tubulações com os meios que tinham disponíveis e aguardavam alguma sinalização do poder público. A espera foi em vão
Nenhum representante da Prefeitura de Três Lagoas — nem do Executivo, nem da Câmara Municipal — foi ao local. Nenhuma equipe de assistência social realizou cadastro dos atingidos. Nenhuma equipe de obras avaliou as galerias entupidas. Nenhum secretário fez uma declaração pública sobre o ocorrido.
“O que a gente faz é pouco. Estamos esperando alguma decisão.”
A ausência do poder público não é apenas simbólica — ela é funcional. Sem uma avaliação técnica das galerias, o problema não será corrigido. Sem um levantamento dos danos, as famílias não receberão qualquer reparação. E sem uma resposta imediata, a próxima chuva pode causar danos ainda maiores.
Um dos aspectos mais dolorosos relatados pelos moradores é a sensação de que pagam suas obrigações tributárias — o IPTU vence no início do ano — mas não recebem a contrapartida mínima que justificaria esse pagamento: infraestrutura urbana funcional.
Três Lagoas é um dos municípios com maior arrecadação per capita do Mato Grosso do Sul, impulsionada pela presença de grandes indústrias de celulose e outros setores produtivos. Essa arrecadação, no entanto, não parece se traduzir em manutenção das galerias pluviais do bairro Nossa Senhora Aparecida — nem em qualquer outro tipo de proteção para os moradores durante as chuvas.
A equação é simples e brutal: o município arrecada muito, os moradores pagam seus impostos em dia, e a água entra dentro de casa.
O medo tomou conta da comunidade. Moradores relatam que se sentem completamente vulneráveis, sem qualquer proteção ou garantia de que o ocorrido não se repetirá — possivelmente com consequências ainda mais graves.
Sem desobstrução das galerias, sem ampliação do sistema de drenagem e sem qualquer intervenção emergencial por parte da Prefeitura, cada nova chuva representa uma roleta para os moradores da rua Maria Queiroz Moreira e das demais ruas afetadas do bairro.
Uma hora de chuva não deveria ser suficiente para invadir o interior de uma residência não nesse local. Quando isso acontece, há uma falha de gestão pública — não uma fatalidade.
Diante dos fatos relatados, as medidas urgentes que os moradores cobram da Prefeitura de Três Lagoas são:
A população do bairro Nossa Senhora Aparecida não pede milagre. Pede que as galerias sejam limpas. Pede que os bueiros não estejam entupidos. Pede que, quando chover, a água vá para a boca lobo — não para dentro da sua sala. São obrigações básicas de qualquer gestão municipal. E em Três Lagoas, elas não estão sendo cumpridas.
Confira a reportagem: