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Apenas 16 registros em 5 anos contrastam com a realidade observada diariamente nas BRs 262 e 158
Por Henrique Ferian
O Ministério Público de Três Lagoas está investigando a grave subnotificação de atropelamentos de animais silvestres nas rodovias do leste de Mato Grosso do Sul. Segundo o promotor Dr. Antônio Carlos Garcia de Oliveira, da primeira promotoria de justiça com atuação em meio ambiente, os números oficiais não refletem a realidade observada diariamente nas estradas da região.
De acordo com dados oficiais, foram registrados apenas 16 atropelamentos de animais silvestres em 5 anos no trecho que passa por Três Lagoas. “Você acha que 16 registros em 5 anos é o número correto? Absolutamente não é correto”, afirmou o promotor durante entrevista à Jovem Pan Três Lagoas.
A realidade observada por motoristas que trafegam pela BR-262 é completamente diferente. Relatos indicam que é comum encontrar três, quatro ou cinco antas mortas em uma única viagem até Campo Grande, além de outros animais como tamanduás, tatus e macacos.
O problema se agrava pela falta de infraestrutura adequada nas rodovias. A BR-262, com mais de 60 anos de existência, foi construída em uma época em que não havia exigências ambientais e, surpreendentemente, não possui licenciamento ambiental até hoje.
“Segundo o DNIT, o licenciamento ambiental da BR-262 está previsto para 2032”, revelou o promotor, demonstrando a falta de prioridade dada ao problema. Enquanto isso, a rodovia segue sem cercamento adequado e sem passagens específicas para a fauna.
A situação é ainda mais crítica em outros trechos. Na rodovia que segue para Inocência, a empresa de pedágio informou ao MP que não possui nenhum registro de animais atropelados. “Eles enterram os animais na beira das rodovias sem fazer nenhum registro, como se isso fosse correto”, denunciou o promotor.
A Polícia Rodoviária Federal é o único órgão que mantém registros mais consistentes, mas mesmo assim há falhas no sistema. Outros órgãos como IBAMA, IMASUL e DNIT não possuem cadastros, fotos ou informações consolidadas sobre o problema.
O cultivo de eucalipto na região intensificou o problema. O movimento constante de caminhões e máquinas, especialmente durante a noite, força os animais a buscarem novos caminhos para se alimentar, utilizando as rodovias como corredores de passagem.
“Nós estamos observando que os animais têm que se movimentar de uma propriedade na outra para poder se alimentar. E eles acabam achando o corredor das rodovias. Em muitos casos, a rodovia é, na verdade, o corredor da morte”, explicou o promotor.
O problema não afeta apenas os animais. Há diversos registros de acidentes graves envolvendo motoristas que colidiram com animais silvestres, resultando em mortes e ferimentos graves. “Não é só o animal que morre. Eu tenho notícias de pessoas que se acidentaram, que morreram. Gente que estava à noite na rodovia, bateu numa anta, morreu todo mundo”, alertou o promotor.
O MP identificou diversas medidas que poderiam reduzir drasticamente os atropelamentos:
Cercamento adequado: Instalação de cercas nas áreas de maior concentração de fauna, especialmente próximo a córregos, rios e matas preservadas.
Limpeza das margens: Remoção da vegetação nas laterais das rodovias, como é feito na Rodovia Marechal Rondon, para aumentar a visibilidade e desencorajar animais a se aproximarem.
Passagens de fauna: Construção de túneis ou passarelas específicas para permitir a travessia segura dos animais.
Redutores de velocidade: Instalação de lombadas em pontos críticos onde a fauna é mais abundante.
Sistema de monitoramento: Criação de um 0800 para relatos de animais na pista, com equipe especializada para resgate.
O MP solicitou informações à PRF, DNIT, Polícia Militar Ambiental, IMASUL e a concessionária Way-112. Com base nas respostas, será convocada uma reunião com todos os atores envolvidos, incluindo as empresas de celulose, para buscar soluções amistosas.
“A minha ideia é ter um 0800 relativamente aos animais nas rodovias e uma equipe de recolhimento desses animais. Todos os atores dessa cena trágica têm obrigação: o DNIT, o IBAMA, os órgãos ambientais, e as empresas de celulose”, enfatizou o promotor.
Caso não haja avanços nas tratativas, o MP não descarta a possibilidade de ações judiciais para garantir a proteção da fauna e a segurança dos motoristas.
Confira a Entrevista: