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Por AUGUSTA RUFINO
Entre relatos pessoais, provocações e verdades difíceis de admitir, entrevista com Ivete Sigrist mostra como a autossuficiência pode adoecer, afastar pessoas e impedir uma vida mais leve — um alerta direto para quem insiste em não pedir ajuda
Era para ser mais um bloco de entrevista na programação da tarde da Jovem Pan 99,5 FM, nesta quinta-feira (30). Mas não foi. Comecei conduzindo como sempre — apresentação, tema, pergunta de abertura — mas bastaram poucos minutos de conversa com Ivete Sigrist para perceber que não dava para ficar apenas no papel de entrevistadora. Em vários momentos, me vi dentro do assunto. Porque, quando o tema é a ilusão da autossuficiência, não tem muito como ficar de fora.
VIVÊNCIA REAL
Ivete não fala de teoria, e isso fica evidente logo no início. “Os temas que eu trago são coisas que eu vivi”, disse. “Eu já carreguei tudo sozinha e não valeu a pena.” Essa fala muda o tom da conversa, porque tira o discurso do lugar comum e leva para um campo mais honesto. Não é sobre frases prontas de rede social, mas sobre experiência — e consequência. Talvez por isso tanta gente se identifica quando ela participa da programação. Não é raro ver mensagens chegando com aquele clássico: “essa foi pra mim”.
FORÇA QUE CANSA
Existe uma ideia muito enraizada — e aqui entra também uma observação pessoal — de que ser forte é dar conta de tudo. A gente aprende isso cedo, muitas vezes dentro de casa. Mas, ao longo da entrevista, essa ideia começa a se desfazer. “Você acha que é autossuficiência, mas é sobrecarga”, explicou Ivete. “E isso vai adoecer.” Não é exagero. Ela citou consequências diretas, como estresse emocional, desgaste físico e até doenças que surgem desse acúmulo constante. E, ouvindo aquilo, é impossível não pensar em quantas pessoas estão vivendo exatamente assim.
CICLO PERIGOSO
Um dos pontos mais marcantes da conversa foi perceber como esse comportamento se retroalimenta. A gente gosta de ajudar — isso é quase automático, faz bem, traz sentido. Mas, quando o assunto é receber ajuda, a lógica muda completamente. “Eu tenho dificuldade de pedir porque tenho dificuldade de aceitar”, disse Ivete. E isso explica muita coisa. A pessoa não pede, não aceita, faz tudo sozinha e depois se frustra porque ninguém ajuda — quando, na verdade, ela nunca abriu espaço para isso acontecer.
RELAÇÕES AFETADAS
Esse padrão não pesa só na rotina, mas também nas relações. Ivete trouxe um relato pessoal forte ao contar que percebeu o próprio marido se afastando. “Eu comecei a expulsar ele da minha rede de apoio”, afirmou. Não por rejeição consciente, mas por não saber receber. E isso acende um alerta importante: quantas vezes a gente afasta quem quer estar por perto simplesmente porque insiste em fazer tudo sozinho? O impacto disso vai além do cansaço — chega na solidão.
MEDO ESCONDIDO
No fundo, existe algo ainda mais profundo sustentando esse comportamento: o medo. “É o medo de mostrar vulnerabilidade”, explicou. Medo de parecer fraco, de não dar conta, de não ser suficiente. E, para esconder isso, a pessoa se sobrecarrega ainda mais. É uma tentativa de provar força que, na prática, acaba gerando desgaste.
ROTINA PESADA
Durante a entrevista, em um momento quase descritivo do cotidiano, Ivete começou a listar tarefas — trabalho, casa, filhos, compromissos — tudo ao mesmo tempo. Era impossível não se reconhecer naquela cena. “Você não é uma super mulher. Para com isso”, disse, de forma direta. Pode soar simples, mas não é. Existe uma romantização do cansaço, um orgulho silencioso em estar sempre sobrecarregado, como se isso validasse a própria força. Só que o preço disso é alto.
PEDIR AJUDA
Talvez a virada mais importante da conversa esteja na forma de encarar o ato de pedir ajuda. “Pedir ajuda não é fraqueza. É coragem”, afirmou. E isso exige mais do que parece. Exige reconhecer limites e, principalmente, aceitar o outro. Porque não adianta pedir ajuda e, na sequência, criticar ou refazer tudo. “Você pede ajuda e depois corrige. Isso afasta as pessoas”, alertou. E, nesse ponto, a reflexão é inevitável.
MUDANÇA POSSÍVEL
Apesar de tudo, há um caminho. E ele começa pela consciência. “Eu estou em processo”, disse Ivete, em um momento de honestidade que aproxima ainda mais o discurso da realidade. Não se trata de mudar da noite para o dia, mas de perceber padrões, ajustar comportamentos e tentar fazer diferente. Ela sugere algo simples, mas eficaz: observar, anotar, refletir. Pequenas atitudes que ajudam a sair do automático.
SAIR DO AUTOMÁTICO
Aliás, esse talvez seja um dos maiores desafios atuais. “A gente atropela tudo e nem percebe”, disse. E é exatamente isso. A rotina acelera, as decisões viram hábito e, quando se percebe, já se está sobrecarregado novamente. Parar, respirar e observar não é perda de tempo — é estratégia. “Retroceder não é perder tempo, é ganhar tempo”, afirmou, trazendo uma imagem que faz sentido em um mundo que cobra pressa o tempo todo.
MENSAGEM FINAL
Ao final da entrevista, ficou uma frase simples, mas necessária: “Você não precisa fazer tudo sozinho.” Pode parecer óbvia, mas, na prática, muita gente ainda vive como se não tivesse escolha. E talvez esse seja o maior ponto de utilidade pública dessa conversa: entender que não é falta de capacidade. É excesso de carga — e isso, inevitavelmente, pesa.