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Sem dados operacionais na REDEMET, o aeroporto Plínio Alarcon opera com limitações técnicas relevantes enquanto a gestão municipal se prepara para transferir o terminal à iniciativa privada até abril em um possível modelo de concessão encabeçado pelo governo do estado. Desde fevereiro de 2025 a Secretaria Municipal de Desenvolvimento Econômico, Ciência e Tecnologia (SEDECT) de Três Lagoas assumiu a gestão do Aeroporto.
Com exclusividade por Henrique Ferian
O aeroporto Municipal Plínio Alarcon, em Três Lagoas, está operando sem dados meteorológicos aeronáuticos oficiais após a perda do prazo de renovação do credenciamento do serviço responsável por alimentar a REDEMET — a Rede de Meteorologia do Comando da Aeronáutica, sistema que concentra e distribui as informações atmosféricas utilizadas pela aviação em todo o Brasil. A ausência desses dados não decorre de uma falha técnica inesperada, mas, segundo informações obtidas por fontes ligadas, de uma decisão administrativa: a prefeitura teria optado por não renovar o contrato do serviço diante da iminente concessão do aeroporto à iniciativa privada, prevista para ocorrer até abril.
A REDEMET é o principal sistema oficial de meteorologia aeronáutica do país. Mantida pelo Departamento de Controle do Espaço Aéreo (DECEA), órgão do Comando da Aeronáutica responsável pela gestão da navegação aérea brasileira, a rede integra dados coletados em aeroportos, radares meteorológicos, centros de previsão e estações automáticas espalhadas pelo território nacional. É por meio dela que pilotos, companhias aéreas, operadores aeroportuários e controladores de tráfego aéreo acessam informações padronizadas e certificadas sobre as condições meteorológicas em cada aeródromo.
Nos aeroportos, os dados que alimentam a REDEMET são gerados por serviços meteorológicos aeronáuticos homologados, que medem e validam parâmetros essenciais como vento, visibilidade, pressão atmosférica, formação de nuvens e fenômenos que podem afetar pousos e decolagens. Essas observações são publicadas em formatos operacionais internacionais, como o METAR, considerado a referência oficial das condições meteorológicas em tempo real para a aviação.
Sem um serviço meteorológico credenciado e ativo, não há dados válidos para envio à REDEMET. E sem dados na REDEMET, o aeroporto deixa de ter informação meteorológica oficialmente reconhecida pelo sistema aeronáutico brasileiro.
É exatamente essa a situação atual do aeroporto de Três Lagoas.
A interrupção do credenciamento retirou do aeródromo um dos elementos mais básicos da segurança operacional da aviação moderna: a observação meteorológica certificada. Sem ela, deixam de existir registros oficiais validados das condições atmosféricas locais, e o aeroporto passa a operar sem referência meteorológica operacional homologada.
Embora Três Lagoas não tenha voos comerciais regulares, o impacto não é pequeno. O aeroporto recebe diariamente aeronaves de pequeno e médio porte, especialmente da aviação executiva, corporativa e logística ligada ao setor industrial da região. Esse tipo de operação depende diretamente de dados meteorológicos confiáveis, sobretudo em cenários de visibilidade reduzida, instabilidade atmosférica ou variações bruscas de vento.
Sem observação oficial certificada, decisões operacionais passam a depender de estimativas, observações visuais ou dados de aeródromos distantes, que podem não representar as condições reais da pista. Na lógica da segurança aeronáutica, isso não é apenas uma limitação técnica — é um fator de risco operacional.
A ausência de meteorologia homologada pode restringir operações por instrumentos, reduzir a precisão do planejamento de voo, comprometer o cálculo de mínimos operacionais e diminuir o nível de confiabilidade do aeródromo dentro do sistema de navegação aérea. Um aeroporto sem dados meteorológicos oficiais deixa de atender plenamente requisitos técnicos para determinados tipos de operação e perde integração plena com a rede nacional de monitoramento atmosférico da aviação.
O ponto mais sensível do caso é o motivo da interrupção. Segundo as informações apuradas, a prefeitura teria deixado o credenciamento vencer deliberadamente, avaliando que não faria sentido renovar o serviço às vésperas da transferência da gestão aeroportuária para a iniciativa privada. A concessão do aeroporto está prevista para ocorrer até abril.
Se confirmada, a decisão desloca a discussão do campo burocrático para o campo da gestão de risco operacional. Isso porque um serviço técnico essencial teria sido interrompido antes que um novo operador estivesse pronto para assumir sua continuidade. O resultado é um intervalo em que o aeroporto permanece aberto e funcional, mas sem um dos seus principais instrumentos técnicos de segurança.
Em processos de concessão aeroportuária, o padrão mais comum é a manutenção integral dos serviços críticos até a transferência formal de gestão, garantindo continuidade operacional plena durante a transição. A interrupção antecipada de um serviço essencial não é o modelo mais usual em ambientes regulados por normas rígidas de segurança.
Do ponto de vista administrativo, a decisão pode ter sido tratada como racionalização de custos — evitar a renovação de um serviço que seria reimplantado pela futura concessionária. Do ponto de vista operacional, porém, a lógica é diferente. A segurança da aviação é construída sobre continuidade, redundância e certificação permanente, não sobre períodos intermediários sem cobertura técnica.
O aeroporto segue recebendo aeronaves, e a concessão pode, de fato, restabelecer o serviço meteorológico homologado quando a nova operadora assumir. Mas até que isso aconteça, o aeródromo permanece fora da rede oficial de observação meteorológica do país — uma rede operada pelo próprio sistema de controle do espaço aéreo brasileiro, responsável por garantir padronização, confiabilidade e segurança nas operações aéreas.
Ainda sem resposta pública clara: quando exatamente o serviço perdeu a validade, se houve decisão formal de não renovação, quais medidas de mitigação foram adotadas, se existem restrições operacionais reconhecidas oficialmente e qual o prazo real para restabelecimento da observação meteorológica certificada.
A futura concessão pode resolver o problema estrutural. Mas não elimina a questão imediata: por que um serviço essencial para a segurança operacional deixou de existir antes que o novo operador estivesse pronto para substituí-lo?
Na aviação, a ausência de continuidade raramente é tratada como simples transição administrativa. Normalmente, é tratada como vulnerabilidade operacional.