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Tecnologia, resiliência e diversificação mantêm a força do agronegócio em Três Lagoas

Por AUGUSTA RUFINO

 

Presidente do Sindicato Rural, Bruno Ribeiro, analisa o cenário macroeconômico local, aborda a estabilização da pecuária diante da chegada da celulose

 

O agronegócio de Três Lagoas vive um período de intensa transformação estrutural, caracterizado pela transição de áreas e pela convivência harmônica entre diferentes cadeias produtivas. Em entrevista detalhada nesta terça-feira (9), ao Jornal da Manhã na Jovem Pan 99.5 FM — emissora do Grupo Difusora —, o engenheiro agrônomo e presidente do Sindicato Rural do município, Bruno Ribeiro, apresentou um raio-X completo do setor a nível local.

O líder setorial abordou tópicos que vão desde a estabilização do rebanho bovino diante do avanço das florestas plantadas até os impactos das taxas de juros no campo e o papel institucional do sindicato como um polo educacional gratuito para a comunidade.

O fenômeno da pecuária: 500 mil cabeças em menor espaço

Um dos dados mais expressivos apresentados por Bruno Ribeiro, com base em registros oficiais da Agência Estadual de Defesa Sanitária Animal e Vegetal (Iagro), diz respeito à resiliência da pecuária de corte e leite local. O município passou por uma mudança drástica no uso do solo a partir de 2009, impulsionada pela expansão massiva do setor de papel e celulose, que converteu extensas áreas de pastagens em plantios de eucalipto.

No entanto, o rebanho bovino total de Três Lagoas não encolheu.

“Em 2009, quando veio a celulose para cá e deu esse boom, nós tínhamos um rebanho de aproximadamente 500 mil cabeças de gado. Hoje, em 2026, com todas essas áreas arrendadas, vendidas ou em parceria com a indústria de celulose, Três Lagoas ainda continua com as mesmas 500 mil cabeças”, revelou Ribeiro.

De acordo com o presidente, a explicação para esse fenômeno reside na verticalização produtiva. Para se manterem competitivos em áreas territorialmente menores, os pecuaristas locais investiram massivamente em:

  • Genética animal de alta linhagem;

  • Estudos avançados de manejo de solo e pastagens;

  • Tecnologias de nutrição e confinamento;

  • Inovação em pecuária irrigada.

A nova cara do campo: citricultura e amendoim

O dirigente apontou que a diversificação tornou-se o principal motor de sustentabilidade econômica do produtor. Além do eucalipto e da tradicional pecuária de elite, Três Lagoas vê o fortalecimento de novas culturas:

  • Citricultura: O setor expande-se de forma acelerada na região devido às características climáticas locais. Por ser um clima predominantemente seco, a proliferação de fungos e pragas severas nas plantações de laranja torna-se difícil, reduzindo a incidência de doenças. Além disso, a região oferece uma bacia hidrográfica riquíssima, atendendo à alta demanda por irrigação que a cultura exige, tudo sob a rigorosa fiscalização normativa da Iagro.

  • Amendoim e Agricultura Familiar: A cultura do amendoim começa a se consolidar como opção de rotação e rendimento. Paralelamente, Ribeiro destacou a pujança do cinturão verde no Assentamento Pontal do Faia, um polo de agricultura familiar focado na produção de hortaliças, fruticultura e no desenvolvimento do turismo rural.

Gargalos econômicos: “Uma indústria a céu aberto”

Apesar do avanço tecnológico, o cenário econômico dos últimos dois anos tem exigido cautela extrema dos produtores rurais de pequeno, médio e grande porte. Ribeiro classificou o produtor como um administrador de riscos extremos e contestou visões críticas que estigmatizam a atividade.

  • Juros altos e inadimplência: O presidente relatou que a elevação recente das taxas de juros bancários desajustou o planejamento financeiro no campo. “O produtor pegava dinheiro barato para produzir e pagava. Hoje, a inadimplência subiu porque os juros encareceram demais. Quem precisa, pega o crédito e enfrenta dificuldades; quem observa o cenário, prefere estagnar os investimentos e esperar uma melhora”, explicou.

  • A regra dos 80/20: Ao rebater discursos que pintam o agronegócio como vilão ambiental, Ribeiro utilizou uma metáfora patrimonial para ilustrar as obrigações legais de preservação (Reserva Legal e APP) impostas pelo Código Florestal na região:

“O agronegócio não é vilão, os produtores são verdadeiros heróis. Imagine você comprar uma casa, pagar por ela com seu trabalho, mas só poder usufruir de 80% do espaço, sendo obrigado a isolar e cuidar dos outros 20%. É isso que o produtor faz na propriedade dele, gerenciando uma indústria a céu aberto sujeita a mudanças drásticas de clima.”

Formação de lideranças e o Sindicato como polo educacional

Com formação em Agronomia obtida em 2011 e atuação no setor privado, Bruno Ribeiro atribui a atual aproximação do Sindicato Rural com os conselhos municipais (Segurança, Turismo e Desenvolvimento) e com a administração pública à sua formação no programa Líder MS. Trata-se de uma especialização em liderança estratégica do Sistema Famasul, realizada por grandes nomes da política sul-mato-grossense, como a senadora Tereza Cristina e o governador Eduardo Riedel.

Essa visão institucional transformou o Sindicato Rural de Três Lagoas, nos últimos três anos, em um polo educacional permanente e gratuito, atuando em parceria direta com o SENAR/MS para suprir a demanda técnica das indústrias locais:

Curso Técnico (Duração: 2 anos / Gratuito) Contexto e Demanda Local
Técnico em Florestas Turmas triplicadas para atender à enorme demanda de contratação das indústrias de celulose.
Técnico em Agronegócio Focado em gestão de propriedades, comercialização e mercado financeiro do agro.
Técnico em Zootecnia Voltado à eficiência produtiva, nutrição e melhoramento genético animal.

Além dos diplomas técnicos de longa duração, a instituição promove capacitações rápidas semanais (com cargas horárias de 5 a 40 horas). Um dos maiores sucessos de procura na região, operando constantemente com lista de espera, é o curso de operação de drones, solicitado inclusive por órgãos vinculados ao conselho de segurança para o monitoramento de áreas.

Conexão com a comunidade urbana

Para o presidente, a desmistificação do campo só ocorre de forma efetiva quando as barreiras entre a cidade e a zona rural são quebradas. É nesse contexto de integração que o Sindicato apoia a realização da 48ª Expotrês (que ocorre de 11 a 15 de junho de 2026, com portões abertos à população). O evento técnico e de entretenimento, realizado em parceria com a Prefeitura Municipal do Prefeito Dr. Cassiano, a Câmara sob a presidência do vereador Tonhão, e o Governo do Estado, é visto como a principal vitrine anual para demonstrar como a tecnologia do campo sustenta a economia do município em seu mês de aniversário.

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